Dia 04 de Maio de 2011
Quarta-Feira
Hoje eu acordei muito bem. Não sei se foi por ter dormido um pouco mais cedo. Cheguei a minha casa do trabalho ontem à noite e tomei um banho. Depois de uma pequena discussão com a minha mãe. Sai do banho e fui jantar e logo depois fui dormir. Dormi cedo. Dormi bem e acordei cedo e bem. Acordei antes mesmo de ela chegar ao meu quarto. Sai da cama, dei uma volta pela casa e quando vi meu pai voltei às pressas pra minha cama. Eu fiquei deitado de olhos fechados no escuro. Quase escuro. Tinha uma luz fraca vindo pela porta. Estranho era a luz não vir também pela janela. Foi por isso que pensei ter acordado cedo demais. Imaginei que alguma luz da casa estava acessa e me escondi debaixo dos cobertores antes de levantar pela primeira vez. Eu tenho medo da noite, do escuro e da madrugada. Eu tenho medo das três da manha.
Logo depois do meu banho matinal. Que hoje foi muito confortável. Sem pressa e sem raiva e a vontade e todas as coisas deliciosas de uma manha calma. Que abria um dia calmo. Afinal, hoje seria um dia bem calmo. Meus chefes não estariam no estúdio – eles não estão até antão – e eu poderia trabalhar bem mais calmo. Quarta-Feira. Meio de semana, semana de pagamento e cigarro acabando. O cigarro já acabou pra falar a verdade.
Fui tomar café essa manha, uma caneca de café com leite ou leite com café. Fui pegar uma caneca, eu queria a minha. Fui até onde estavam todas secando. Não estava lá. Fui até o armário onde ela sempre ficava e ela não estava ali também. Eu perguntei em voz alta. Porém não falei pra ninguém. Falei perguntando comigo “Onde está a minha caneca”. Foi quando a minha irmã falou depressa e com desdém; “Está ali no balcão.” Fui ate lá pegar a minha caneca e minha mãe começou a resmungar o fato de eu ter reclamado a minha caneca. Ela, como sempre, pensou que eu estava insinuando que alguém tivesse pegado a minha caneca. Mas eu não estava fazendo isso. Eu queria saber onde estava pra eu tomar meu café. E ela começou a me xingar enquanto eu despejava leite e café na minha caneca no balcão. E ela falava e falava. E eu disse que ela entendeu mal. Expliquei que eu somente perguntara em voz alta. Que eu falava comigo mesmo. Ela é tão teimosa e eu conhecendo como conheço expliquei com calma. Ela continuou falando o quanto eu era mal criado, sem educação. Um péssimo filho que não dá valor. Eu tentei ficar calado enquanto ela falava tudo aquilo. Que por mais que eu finja que não, me magoa. Magoa-me e muito.
Minha mãe. Não sei de onde e como, tirou uma idéia que eu a odeio. Não sei por quê. Não sei quando. Não sei como. Há alguns anos ela vem falando isso “Eu sei que você não gosta da gente”. Mas que diabos ela esta dizendo. Se eu não gostar de alguém eu nem ao menos penso nessa pessoa. Quem dirá viver com ela o dia todo e conversar, contar as novidades. Desde quando ela começou a dizer isso eu venho dizendo “Que dia que eu disse que não gosto de você?”. Lembro que recentemente eu perdi a paciência e falei pra ela parar com isso. Disse que era uma palhaçada, não era legal de ouvir e que não tinha nexo nenhum. E não é uma coisa que você fala tão tranquilamente pra alguém. Perguntei quando foi que eu falei pra ela que a odiava. Ela nunca para de falar isso. Nunca para de dizer que eu não gosto dela. Coisa que nunca disse e ainda não sinto. Eu amo a minha mãe e isso não é preciso ser dito.
Hoje de manha eu perdi a paciência e enquanto ela falava sobre a caneca e a minha falta de educação, egoísmo, falta de respeito e Blá, Blá, Blá. Eu soltei “Ai! Mãe. Vai ver se eu estou na esquina.” Ela parou quieta e fez uma voz fina e rouca. “O que?”. Eu fiquei calado e continuei a tomar o café. Calado.
“Mas então é isso não é? A gente fica aqui fazendo papel de bobo. Faço tudo por vocês e vocês ficam me tratando como lixo. Eu deveria esquecer você e deixar pastar bastante. Porque desse jeito você não vai muito longe não. Vai sofrer muito. Não vai conseguir nada nessa sua vida.”
Essa conversa demorou 30 minutos enquanto eu ainda estava em casa. Tive que ficar calado pra não passar mais conflito. Eu sempre faço isso. Fico calado pra não render muito assunto e muita briga. Mas as vezes eu não tenho paciência. Ela fica falando o tempo todo sobre isso. Sobre eu ser o pior filho do mundo. Eu não vejo nexo nesse comportamento da minha mãe. Eu me acho uma pessoa tão digna de orgulho. Tenho dezessete anos. Beirando meus dezoito. E vê lá. Já tenho dois quase dois anos de empresa na empresa que trabalho. Tenho como profissão uma coisa que gosto muito. Levo minha vida muito a serio e tudo que eu faço é bem equilibrado. Sou a vergonha da família por ser Gay. Mas apesar de tudo que a sociedade pensa eu sei que eu sou digno de respeito. Não o Marcio Gay. Simplesmente o Márcio.
Certa vez o Mateus Marques me disse “Não fica ai olhando a falta de valor dos outros. Pense e mostre o seu valor”. Foi logo após eu contar os pós e contras da minha família. E o fato de eu ser o único filho, e o filho mais novo. Quem tem um trabalho fixo com carteira assinada e uma profissão bem legal. O que é a verdade. Prefiro não contar nos dedos os problemas da minha família. Nenhuma família é perfeita. Eu sei. Já tive inveja de algumas famílias e depois tive orgulho da minha e o contrario. Que vem e vai e volta.
Às vezes eu fico triste com essas brigas lá de casa. Mas depois tudo passa, eu esqueço e me acomodo ao cômodo. Depois quando tudo me volta fico triste. Preciso mudar alguma coisa nessa minha vida que eu acho que estou fingindo que não existe. Sinto-me estranho às vezes de estar levando essa vida. Dezessete anos, trabalhando de segunda a sexta enquanto meus amigos fumam um baseado e eu não tenho tempo nem pra acender um cigarro. Pagando contas, fazendo contas. Preocupando-me com a vida, com o amanha. Com o futuro próximo e o que não é tão próximo assim. Tentando arrumar os erros. Tentando arrumar um ideal e esquecer os problemas do coração. Algumas vezes tentando encontrar um alguém que me entenda e me acompanhe. Algumas vezes tentando decifrar o que os outros estão sentindo no meu mundo. Tentando viver com calma. Tentando viver feliz. E no fim do dia deitando na cama notando que se foi mais um dia na rotina e na falta do movimento dos meus pés. Eu ainda estou sem respostas. Eu ainda não sei o que fazer da minha vida.